segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Tudo bons rapazes cheios de boas intenções

 


Ao longo do tempo, tenho-me questionado repetidamente sobre a real capacidade do candidato André Ventura à Presidência da República em cumprir aquilo que proclama e promete ao eleitorado. Essa inquietação tem-me acompanhado, alimentando um desejo persistente de traduzir estas reflexões em palavras escritas. Agora, com a inspiração finalmente presente, sinto-me compelido a partilhar estas interrogações e ponderações de forma clara e estruturada.

O objetivo central desta reflexão é expor e desmontar a construção ficcional que envolve a figura de André Ventura na política nacional. O seu discurso, apresentado como solução para todos os males do país, é sustentado por uma retórica autoritária e por uma postura de severidade, frequentemente desprovida de empatia. Ventura não demonstra, nas suas intervenções e propostas, qualquer traço de compaixão ou respeito genuíno pelo próximo, valores fundamentais não só numa sociedade democrática, mas também para quem se assume como católico e seguidor da fé cristã.

É notório que Ventura, apesar de se apresentar como alguém que cumpre os preceitos da religião católica, frequentando regularmente a igreja e participando nas missas, não traduz esses princípios nas suas ações políticas nem no trato com os outros. A distância entre as exortações apostólicas do Papa - que sublinham o amor ao próximo, a tolerância e o respeito pela dignidade humana - e a prática política de Ventura é evidente. Esta incoerência levanta questões sobre a autenticidade e a motivação das suas intenções, revelando um desfasamento entre o que proclama em matéria de fé e o que efetivamente põe em prática enquanto agente político.

André Ventura não é uma figura de ficção, mas a implementação do que diz e promete fazer, se for eleito, são na sua maior parte, ficções populistas e eleitoralistas com algum cariz de autoritarismo.

Ventura não é um conciliador, não ostenta a tolerância que os tempos exigem. O autoritarismo revela-se pelas pretensões a seguir os mais autocratas da Europa e dos EUA como Donald Trump e as suas incongruências não têm medida. Em 28 de agosto de 2024 Ventura afirmou que prefere que Donald Trump vença as eleições norte-americanas do próximo dia 5 de novembro. Ainda assim, André Ventura considera que nem o candidato republicano nem Kamala Harris correspondem ao “melhor que a América podia ter”. Ventura tirou a máscara e viu-se Donald Trump.

As propostas e promessas de André Ventura, são meras criações ficcionais que adquirem contornos de ficções populistas e eleitoralistas quando analisadas sob o prisma da sua viabilidade e fundamentação.Apesar de não ser uma personagem inventada para o palco político, Ventura recorre frequentemente a discursos que, embora formulados como respostas diretas aos problemas do país, não apresentam bases realistas nem indicam caminhos exequíveis para a sua concretização. Assim, estas promessas funcionam primordialmente como ferramentas de mobilização, captando a atenção e as emoções do eleitorado, em vez de constituírem verdadeiros projetos indicadores para a governação.

Ventura distancia-se de qualquer papel conciliador que a conjuntura política contemporânea exige. O seu discurso é marcado por uma clara ausência de tolerância, característica fundamental para líderes que pretendem promover o entendimento e a coesão social. Esta postura é acentuada pela inspiração em figuras autocráticas da Europa e dos Estados Unidos, nomeadamente líderes como Donald Trump, reforçando o tom autoritário que permeia as suas intervenções públicas. Tal abordagem, contrária aos princípios do pluralismo e do diálogo democrático, evidencia um caminho incompatível com a promoção do entendimento e do respeito mútuo na sociedade portuguesa.

Nos últimos tempos, André Ventura, líder do Chega e figura central da atualmente segunda força política portuguesa, tem procurado reinventar o seu discurso e estratégia. Segundo Manuel Carvalho, num artigo de opinião publicado no jornal Público em abril de 2025, Ventura evoluiu do simples recurso a declarações panfletárias ou xenófobas, percebendo que o seu habitual tom agressivo já não bastava para galvanizar o eleitorado e que as suas conhecidas invetivas contra corruptos e ladrões começavam a perder impacto junto da opinião pública.

Perante esta constatação, Ventura passou, em meados de 2025 a empunhar o bordão do nacionalismo económico, alinhando-se com políticas protecionistas e de autarcia que remetem para a abordagem implementada por Donald Trump nos Estados Unidos. A chamada “guerra das tarifas”, desencadeada pelo presidente americano, serviu de inspiração para Ventura procurar importar para Portugal uma retórica semelhante, defendendo a imposição de tarifas e barreiras comerciais como solução para os problemas económicos nacionais que posteriormente e estrategicamente abandonou.

Naquela altura do seu processo de reinvenção Ventura afastava-se até da extrema-direita europeia, preferindo rever-se na linha adotada por Trump e na lógica do “Make America Rich Again” (MARA). Esta aproximação ao modelo americano revela uma tentativa de Ventura de se distinguir dos seus pares europeus, procurando um novo patamar de protagonismo político centrado na agressividade e no nacionalismo económico.

Com o desgaste das suas abordagens tradicionais, Ventura percebeu que para manter as suas expectativas eleitorais não bastava mais o discurso da zaragata ou a retórica de confrontação, às quais regressou passado pouco tempo e regressou às acusações recorrentes e procurar alternativas que lhe permitissem continuar a mobilizar apoiantes.

Ao refletir sobre as eleições, sejam legislativas, autárquicas ou, como é o caso presente, presidenciais, é inevitável constatar que votar no partido Chega ou em André Ventura representa, na verdade, tomar a mesma decisão. O motivo é simples: André Ventura não só fundou o Chega, como é o rosto e a essência do partido, tornando-se impossível separar a identidade de um da do outro. Esta simbiose é tão profunda que, para muitos eleitores, a existência do Chega sem Ventura parece inconcebível ou, caso aconteça, será apenas por um breve período, o partido poderá esgotar-se.

Para o próprio Ventura, a situação nunca foi ambígua. Pelo contrário, a associação entre o seu nome e o partido é, para ele, motivo de orgulho e motivo de constante reafirmação. O termo “Claro”, que integra o seu nome, serve como metáfora da clareza com que Ventura encara a sua liderança e a sua ligação ao Chega, tornando a relação entre ambos inequívoca aos olhos do eleitorado.

A tentação de votar em André Ventura para Presidente da República surge principalmente entre eleitores que, desiludidos com os partidos tradicionais ou descrentes na eficácia das instituições democráticas, procuram respostas rápidas e soluções aparentemente simples para problemas complexos. Estes eleitores veem em Ventura uma alternativa ao sistema político vigente, acreditando que a sua postura direta e os seus slogans incisivos representam uma rutura necessária para regenerar a vida pública e combater males como a corrupção, a ineficácia dos serviços públicos e a insegurança social.

Para muitos destes eleitores, as promessas de Ventura, por mais irrealistas ou delirantes que sejam, soam como verdades óbvias e desejáveis. A ideia de “pôr na cadeia todos os corruptos” ou de garantir “mais saúde” e “menos impostos” responde ao desejo coletivo de justiça e melhoria de vida, mesmo que careça de explicação sobre a sua concretização. A sua retórica, marcada por uma linguagem acessível e emocional, capta sobretudo quem se sente excluído ou pouco representado pelo discurso político tradicional.

O apoio a Ventura reforça-se junto daqueles que, por desconhecimento ou desinformação sobre o funcionamento das instituições democráticas, acreditam que o Presidente tem poderes quase ilimitados para resolver todos os problemas nacionais. Esta perceção alimenta a crença de que basta “querer, poder e mandar” para transformar a realidade, ignorando os processos, limitações e equilíbrios próprios de um regime democrático.

Finalmente, muitos eleitores veem o voto em Ventura como um voto de protesto, uma forma de expressar descontentamento e rejeição do sistema e dos partidos instalados. Ainda que reconheçam as contradições e o carácter eleitoralista e ficcional das promessas, preferem arriscar numa figura que se apresenta como um “outsider” e desafiante, independentemente da sua real capacidade de concretizar as mudanças propostas.

No dia 24 de janeiro, António Barreto publicou no jornal Público um artigo de opinião que reflete precisamente aquilo que tenho ponderado há já algum tempo, mas que não pus por escrito: trata-se do conteúdo que Ventura proclama nas entrevistas e debates, que acabam por se tornar repetições cansativas das mesmas ideias e frases feitas. Apesar desta monotonia Ventura revela uma notável capacidade de mobilizar um número significativo de pessoas que o continuam a escutar atentamente e a absorver os seus slogans, muitas vezes semelhantes aos que se escutam em conversas informais de café ou em discussões apressadas de rua, desprovidas de uma reflexão mais profunda.

Permito-me descrever por próprias palavras alguns exemplos que Barreto inclui no seu artigo do Público sobre as narrativas de André Ventura é construído para captar a atenção de quem desconhece os meandros do funcionamento das instituições democráticas.

Ventura apresenta propostas que parecem prometer soluções fáceis e imediatas para os problemas do país, sugerindo que o simples ato de assumir um cargo político permite resolver todas as dificuldades pelo poder do “querer, posso e mando”. Essa visão simplista pode convencer os menos informados, levando-os a acreditar que bastaria a vontade de um líder para transformar radicalmente Portugal.

A ilusão de que é possível atingir resultados milagrosos apenas pela força da autoridade ignora por completo os limites e equilíbrios necessários num regime democrático. A crença num “milagre de São André Ventura” reflete uma compreensão superficial do papel das instituições e do processo político, onde a separação de poderes e o respeito pelas regras são fundamentais.

É essencial, especialmente para os mais jovens, recordar como o desconhecimento da importância das instituições e o fascínio por líderes carismáticos podem conduzir a perigos históricos. O exemplo do partido Nazi na Alemanha serve como um alerta para não se repetir erros do passado, mostrando que a ascensão ao poder baseada em discursos sedutores e promessas irrealistas pode ter consequências graves para a democracia.

Vejamos então algumas dúvidas que se levantam sobre o que André Ventura matraqueia a toda a hora numa nuvem espessa de palavra, conceitos, ideias, propostas e promessas quase sem fim.




Comecemos com as promessas delirantes, e mais do que muitas, de Ventura, mas que muitos portugueses quais esponjas ainda acolhem.

Comecemos com algumas das promessas mais evidentes que é a de “mais saúde” e, também a de “menos impostos”.  Todos nós desejamos o que Ventura promete, mas apenas gostaríamos de saber como vai conseguir essas promessas. Precisamos que nos diga como o fará como Presidente das República e, já agora também se algum dia for primeiro-ministro.

André Ventura diz que vai “pôr na cadeia todos os corruptos”. Quem não gosta de ouvir isto? Mas diga-nos como o vai fazer. Manda nos juízes, se demite os atuais e nomeia novos, vai passar a comandar as polícias ou então cria milícias que batem as ruas prendem a prende e a matar de seguida.

Diz Ventura que vai “acabar com a corrupção e a roubalheira”. Como o vai fazer e com que meios, como e com quem. Para ele quem são os ladrões. Nem o que lhes faz: prende-os, desemprega-os, expulsa-os, deporta-os ou mata-os?

Nesta sequência Ventura fala na sua reforma da justiça, “Sócrates vai ser preso”, assim como “todos os que são iguais aos Isaltinos”. E como o fará para os prender, dar ordem aos juízes com ou sem condenação ou demite-os?

Quanto à Saúde Ventura diz que vai dizer ao Governo “que não pode haver urgências de saúde, designadamente maternidades, encerradas”. Concordamos, mas não nos diz como o vai fazer. Reclamar em público, demitir o Governo, denunciar nos jornais, telefonar aos diretores de hospitais, mandar deputados fazer discursos ou quando vai a despacho com o Governo?

E o que fará mais Ventura como Presidente da República? No artigo que referi anteriormente o autor reflete, e bem, que “Ventura promete obrigar o Governo a cumprir o seu programa, concretizar as suas medidas e fazer as reformas que ele pretende. Mas não diz com que meios, como faz isso, como obriga os governos. Como elabora e corrige os programas de governo. Como escolhe os ministros que farão o que ele prometeu. Como inscreve as suas políticas nos programas dos governos.”

Se falarmos em “rever a Constituição”, que ele apregoa e promete só que não diz como. Como arranjará uma maioria de dois terços para a revisão e dispensando a maioria de dois terços e como irá convencer os deputados a levar a cabo a sua revisão? Que tipo de reformas pretende fazer da Constituição sobre poderes e eleição do Presidente, direitos dos cidadãos, limites à imigração, nacionalização de empresas, acabar com a independência dos tribunais, retirar o direito à greve, limitar a liberdade de expressão, etc..?

Mais hilariante ainda é Ventura dizer que, se for eleito, “dirá aos governos para onde devem ir e o que devem fazer”.  Não nos informa como o vai fazer: se por despacho, se em périplos pelas ruas e pelos mercados, se em mensagens ao Parlamento ou em discursos públicos? Não diz o que vai dizer, nem sobre quê. Saúde, imigração, educação, horários dos transportes públicos, segurança social, desordem nas ruas, criminalidade, ilegalidade…



Esta imagem está no Instagram de André Ventura com a mensagem “Nunca um outdoor fez tanto sentido como este no contexto político português!” Lá estamos com o truque da vitimização. Desconheço onde o outdoor está colocado, contudo a respostas é fácil porque, sendo assim, para ele há um complot contra o homem mais honesto do país, o mais puro, o mais democrata, o mais justo, o mais tudo de tudo. Este senhor será que não se enxerga?

Há mais, muito mais que Ventura não nos diz e os portugueses precisam de saber!!


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A realidade não existe o que existe é a sua falsa perceção

 


Falemos sobre as perceções do primeiro-ministro Luís Montenegro sobre o SNS e a saúde dos portugueses. Para confundir os portugueses Luís Montenegro serve-se de tudo desde meias-verdade a perceções que depois são segundadas com os PowerPoint do ministro da Ministro da Presidência, (leia-se propaganda), António Leitão Amaro, que lhe serve de tábua de salvação. Luís Montenegro faz dos portugueses ignorantes, mas está muito enganado - deixem-me acrescentar também portuguesas para não me acusarem de machista.

Para o senhor primeiro-ministro há uma falsa perceção pelas populações da realidade do SNS que é a criação duma visão distorcida pela mente, muitas vezes ignorando a realidade factual.

Basta ler a comunicação social para confirmar o que ele disse: “Somos todos os dias confrontados com uma perceção de problemas e de crise permanente do SNS. Felizmente, essa não é a realidade”, referiu Luís Montenegro durante a cerimónia de inauguração da nova sede da Direção Executiva do SNS, no Porto sem depois prestar declarações à comunicação social.

O aumento do número de utentes do Serviço Nacional de Saúde, prosseguiu, relaciona-se “precisamente com o aumento da população residente em Portugal, fruto, nomeadamente, dos ciclos migratórios que tivemos nos últimos anos e que é um desafio novo a que o SNS não estava tão habituado”. Ah! afinal parece existir um problema no SNS também devido ao excesso de imigrantes que entraram e procuram os nossos serviços de saúde públicos. Digamos que o senhor primeiro-ministro, neste caso, parece dar razão aos desconchavos de André Ventura.

Li num livro de Miguel Real um parágrafo que do qual faço a minha interpretação que parece ter saído da boca da ministra da saúde do Governo de Luís Montenegro. Parece que dentro da ministra da saúde não têm lugar ecos de lamúrias dos pobrezinhos, porque, se o são, é porque o merecem ser, (parecem palavras de André Ventura ao falar dos subsídios dos que não querem trabalhar e também de alguma maneira para o neoliberalismo de Cotrim de Figueiredo), a que podemos acrescentar um milhão e meio de reformados, que só se vence pelas mortes destes que constituem um encargo para o Estado e ocupam camas nos hospitais. Pensará a senhora ministra da saúde, com a sua arrogante soberba, que ainda bem que não tem ouvido os conselhos de demissão que lhe fazem e pode continuar na sua vida diária a fazer castelos no ar sobre o SNS sempre com o afã necessário para superar quaisquer obstáculos que sempre acaba por não conseguir ultrapassar nem com demissões e nomeações partidárias.

Voltemos aos senhor primeiro-ministro, sem querer entrar em considerações filosóficas como as de Berkeley que argumentava na altura que objetos físicos não existem independentemente da mente, sendo apenas conjuntos de ideias percebidas. Parecem-me as palavras de Luís Montenegro que vão no sentido de que o povo vive num mundo imaginário pleno de perceções.

Isto, a realidade do SNS não existe por si, apenas como perceção da mente da população utente do SNS que satisfaz fielmente o trabalho da ministra da saúde Ana Paula Martins. Talvez tenham ambos feito uma tese de doutoramento de como manipular as informações de modo a evitar o resultado não existente na realidade.

Quando não existe uma realidade consensual para todos, o Governo faz passar por objetiva e verdadeira a realidade que mais satisfaz as elites do poder, mostrando ao povo as suas verdades alternativas, quer dizer, não se trata duma interpretação diferente, mas sim de uma substituição deliberada da realidade factual por uma versão que seja mais conveniente.

Para que a engenharia social no que à saúde diz respeito que pretende transformar do SNS funcione o Governo e a sua ministra da saúde precisam que as elites e a comunicação social não perturbarem com hesitações, verdades problemáticas e indecisões a consciência ignorante e estupidificante das populações, mas devem iluminar-lhes o caminho  que pretendemos seguir mesmo que sem qualquer critério objetivo e dentro duma realidade virtual que tenha efeitos psicológicos positivos na mente das populações utentes do SNS.

Na mesmacomunicação o senhor primeiro-ministro aponta números positivos do SNS, mas nós sabemos como esses números estatísticos podem ser não apenas interpretados de modo que não seja frustrada a previsão dos resultados.

Na saúde não precisamos de ministras que sejam frias e exageradamente racionais e imunes às emoções porque a saúde dos portugueses não é para brincadeiras.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

A carta de Trump à Noruega deveria ser a gota d'água


Este artigo de Anne Applebaum foi publicado na revista The Atlantic

19 de janeiro de 2026 

Será que os republicanos no Congresso algum dia vão intervir?

Permitam-me começar citando, na íntegra, uma carta que o presidente dos Estados Unidos da América enviou ontem ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre. O texto foi encaminhado pelo Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca para embaixadores em Washington, e claramente pretendia ser amplamente compartilhado. Aqui está:
Caro Jonas:
Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter parado 8 Guerras MAIS, não sinto mais a obrigação de pensar puramente na Paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América. A Dinamarca não pode proteger essa terra da Rússia ou da China, e por que eles têm um "direito de propriedade" afinal? Não há documentos escritos, é apenas um barco que desembarcou lá há centenas de anos, mas também tínhamos barcos desembarcando lá. Fiz mais pela OTAN do que qualquer pessoa desde sua fundação, e agora, a OTAN deveria fazer algo pelos Estados Unidos. O mundo não é seguro a menos que tenhamos Controle Completo e Total da Groenlândia. Obrigado! Presidente DJT
Pode-se observar muitas coisas sobre este documento. Uma delas é a gramática infantil, incluindo as maiúsculas estranhas ("Controle Completo e Total"). Outro é o domínio frouxo da história. Donald Trump não pôs fim a oito guerras. A Groenlândia é território dinamarquês há séculos. Seus residentes são cidadãos dinamarqueses que votam nas eleições dinamarquesas. Existem muitos "documentos escritos" que estabelecem a soberania dinamarquesa na Groenlândia, incluindo alguns assinados pelos Estados Unidos. Em seu segundo mandato, Trump não fez nada pela OTAN — uma organização que os EUA criaram e teoricamente lideram, e que só foi usada em defesa dos interesses americanos. Se os membros europeus da OTAN começaram a gastar mais com sua própria defesa (orçamentos para os quais os EUA nunca contribuíram), isso é por causa da ameaça que sentem da Rússia.

As Inovações Autoritárias de Trump

 

Vale a pena ler este artigo publicado no Project Syndicate que é uma organização internacional de media sem fins lucrativos que publica e investiga e faz comentários e análises sobre uma variedade de temas globais.

Donald Trump pointing fingers while speaking in the Oval Office.

As Inovações Autoritárias de Trump

Durante o seu segundo mandato, Donald Trump juntou-se a uma longa linhagem de autocratas que chegam ao poder por meio de eleições apenas para corroer a democracia, com o objetivo final de instalar um regime autoritário. Mas muito sobre o seu primeiro ano de volta ao governo assemelha-se mais às consequências de golpes.

 

NOVA YORK – Todo aspirante a autocrata que assume o poder numa sociedade livre utiliza medidas e métodos testados pelo tempo para deslegitimar e, em última instância, derrotar a democracia. O presidente dos EUA, Donald Trump, não é exceção. Mas a administração Trump também está a dar a sua própria abordagem ao manual autocrático, com três inovações que não têm paralelo entre autocratas contemporâneos que chegaram ao poder por meio de eleições.

Parte superior do formulário

Parte inferior do formulário

O Caminho do Autocrata

Autoritarismo pode ser definido como a expansão da autoridade e do poder pessoal do executivo, em detrimento dos outros poderes do governo, especialmente do judiciário. As instituições estatais tornam-se ferramentas com as quais o líder pune inimigos, lida com problemas financeiros e legais pessoais, acumula riqueza privada e consolida o poder. A primazia desses objetivos explica por que os autocratas valorizam a lealdade em vez da competência ou experiência. Do presidente russo Vladimir Putin e do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan ao primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e Trump, autocratas povoam os seus círculos íntimos com familiares, bajuladores e comparsas, funcionários incapazes.

As cenas que hoje se desenrolam pelos Estados Unidos lembram a história de regimes autoritários, incluindo juntas militares. Tropas percorrem as ruas da cidade, e forças de segurança estaduais mascaradas capturam pessoas e fazem-nas “desaparer” nas prisões nacionais e estrangeiras. Com unidades da Guarda Nacional estadual criando “forças de reação rápida” para “controle de multidões” a pedido do Pentágono, e o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) aumentam os seus gastos anuais com armas, blindados e armas químicas em 600%, parece ser provável uma “guerra eterna” doméstica contra cidadãos americanos.

Como qualquer regime autocrático, a administração Trump precisa de medias complacentes para promover narrativas aprovadas pelo governo e minimizar a cobertura desfavorável, incluindo evidências de sua incompetência em políticas económicas. Esse ambiente mediático é criado em parte por meio de colaborações que promovem o processo de captura dos media, como a compra da CBS News por David Ellison, filho do bilionário apoiante de Trump Larry Ellison.

A intimidação também ajuda: o Washington Post, propriedade do fundador da Amazon, Jeff Bezos, não publica mais opiniões que não estejam alinhadas com os princípios aprovados pela administração de “liberdades pessoais e mercados livres”, e a ABC News desembolsou 15 milhões de dólares para resolver um processo frágil por difamação movido por Trump. Ele continua a criticar e insultar repórteres que o desafiam, e ameaça revogar licenças de transmissão por cobertura pouco lisonjeira. Enquanto isso, o Pentágono cortou o acesso a qualquer jornalista que se tenha recusado a assinar um compromisso de não reportar nenhuma informação “não autorizada”.

Outro elemento familiar do projeto autoritário de Trump é a normalização do extremismo e do racismo. Trump recebeu o supremacista branco Nick Fuentes, amante de Hitler, em Mar-a-Lago, em 2022, e colocou um vídeo em 2024 sugerindo que votar nele era um voto pelo estabelecimento de um “Reich unificado”. Comparsas de Trump como Elon Musk, o ex-estrategista-chefe da Casa Branca Steve Bannon e o alto funcionário da Patrulha de Fronteira Gregory Bovino realizaram publicamente continências ao estilo nazista.

Líderes emergentes do Partido Republicano estão assumindo com entusiasmo esse manto extremista. Em outubro, o órgão Político publicou um grupo no Telegram no qual jovens e funcionários do Partido Republicano em meio de carreira usavam insultos raciais, zombavam sobre estupro e discutiam o envio de opositores políticos para câmaras de gás. O vice-presidente JD Vance descartou as mensagens como “piadas”.

Isso é especialmente preocupante porque, enquanto os cultos à personalidade dos homens fortes dependem da ideia de TINA – “não há alternativa” ao líder - a idade avançada de Trump e o seu aparente declínio físico e cognitivo tornaram a sucessão uma questão importante para seu movimento Make America Great Again (MAGA). Os arquitetos do Projeto 2025, que basicamente delineou a agenda do segundo mandato de Trump, assim como nacionalistas cristãos, o aliado de Musk Peter Thiel e outros interessados, investiram fortemente em Vance, que esperam que possa levar a autocracia americana para o futuro. Mas Vance é impopular além dos fiéis MAGA e parece improvável de vencer uma eleição presidencial livre e justa em 2028 contra um candidato democrata.

A maioria dos autocratas hoje continua a realizar eleições, mas manipula o sistema de modo que seja difícil para a oposição prevalecer (como na Turquia e na Hungria) ou se recusar a deixar o cargo caso perca (Venezuela). Mas, dadas as limitações de Trump, os EUA podem experimentar um desentendimento acelerado do eleitorado, ou até mesmo uma suspensão das eleições por meio da declaração de lei marcial ou algum outro estado de exceção. Trump já sugeriu a ideia de acabar com as eleições. “Daqui a quatro anos, você não precisará de votar mais”, disse Trump a apoiantes cristãos num evento de campanha em 2024. “Vamos consertar tão bem que você não vai precisar mais votar.”

Um ritmo alucinante

Isso nos leva à primeira das inovações autocráticas de Trump: a velocidade, o escopo e a escala da transformação dos Estados Unidos. Em questão de meses, Trump fez mudanças abruptas e radicais na política económica e comercial dos EUA; desestabilizou posições de longa data na política externa, alianças e arranjos de inteligência; e desencadeou operações do ICE que atrapalham o cotidiano de cidadãos e imigrantes nascidos nos EUA.

Imagem para a PS Quarterly: O Ano que Vem 2026 está quase chegando

Outros autocratas contemporâneos que chegaram ao poder por meio de eleições, incluindo Erdoğan, Orbán e Putin, não causaram um nível comparável de agitação durante seu primeiro ano no cargo. Como também observou Anne Applebaum, da The Atlantic, o primeiro ano de Trump assemelha-se mais a momentos de mudança de regime, às consequências de golpes bem-sucedidos ou às repressões que se seguiram a fracassados (como a revolta militar de 2016 contra Erdoğan).

Essa Blitzkrieg foi possível em parte graças ao Projeto 2025 da Heritage Foundation. Durante a presidência de Joe Biden, os arquitetos do projeto atuaram como uma espécie de governo sombra, planeando a destruição de instituições democráticas e o recrutamento do governo federal com um “exército” de agentes cuidadosamente selecionados que seriam “ativados” no primeiro dia do segundo mandato de Trump. A sua tarefa: mudar as culturas políticas e de governança dos Estados Unidos para o autoritarismo.

Autoritários pensam grande e pensam no longo prazo. As figuras que agora moldam a política dos EUA - como o principal organizador do Projeto 2025, Russell Vought (agora diretor do Escritório de Gestão e Orçamento), e o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller – sabem que criar um serviço público compatível é essencial. Isso explica as purgas da administração Trump em funcionários federais dos setores militar e civil, incluindo o Departamento de Justiça. Só apagando a experiência profissional e a memória institucional do governo poderão criar um serviço público recetivo a práticas autoritárias - um novo “estado profundo” que permanecerá no poder muito tempo depois da saída de Trump.

O Oligarca no Comando

O ataque de Trump à democracia dos EUA também foi possibilitado por sua aliança com Musk, o homem mais rico do mundo, e pela criação do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), sob a responsabilidade de Musk. Oligarcas normalmente operam fora do governo, comprando propriedades de media ou financeiras que podem aproveitar a serviço do autocrata. Mas Trump efetivamente fez de Musk  - que havia investido muito para elegê-lo – o seu co-líder.

Durante as primeiras semanas da presidência de Trump, Musk falou regularmente em reuniões de gabinete e no Salão Oval, inclusive para a imprensa, e reuniu-se com chefes de Estado estrangeiros, como o primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Musk foi tão proeminente nesse período que a revista Time o retratou atrás da Resolute Desk do presidente no Salão Oval em uma capa de fevereiro de 2025.

Mas o envolvimento de Musk no governo foi além do espetáculo. Como chefe do DOGE, Musk teve acesso a sistemas de dados dos EUA, com os seus agentes adotando métodos ilegais que são características da mudança de regime. Como soldados executando um golpe, ocuparam prédios governamentais, às vezes impedindo a entrada de membros do Congresso; demitiu milhares de funcionários públicos após proibi-los de aceder aos seus próprios sistemas de computador; e removeram fisicamente funcionários que tentavam impedi-los de apreender propriedades digitais.

O verdadeiro objetivo do DOGE nunca foi “aumentar a eficiência”, mas sim criar um “banco de dados centralizado único com vastos recursos pessoais sobre milhões de cidadãos e residentes dos EUA”, que pudesse ser usado para vigilância governamental e treinamento em IA. Para Musk, as atividades do DOGE também ofereciam uma oportunidade de desmantelar agências que ameaçavam as suas empresas com investigações e multas, além de dirigir negócios governamentais nacionais e estrangeiros para os seus produtos.

Musk deixou publicamente o DOGE em maio, e o “departamento” centralizado foi recentemente dissolvido. Mas a agência continua a operar clandestinamente em centenas de agências, escritórios e departamentos do governo dos EUA. Muitos estados dos EUA possuem uma força-tarefa do DOGE: em Idaho, mais de 70 departamentos, escritórios, programas e comissões estão a ser considerados para cortes a partir de novembro. A Vought, em quem convergem o Projeto 2025 e o DOGE, agora compromete-se a tornar as mudanças do DOGE permanentes.

Esse roubo de dados combinado com infiltração estatal não tem precedentes. Os tiranos atuais e aspirantes ao poder do mundo têm muito a aprender.

Tornando os Adversários da América Grandes

“Se você tem um presidente inteligente, eles não são inimigos”, disse Trump sobre a Rússia, China e Coreia do Norte num comício de campanha na Virgínia em junho de 2024. “Você vai fazê-los saírem-se bem.” Trump certamente está a fazer isso: ao destruir sistematicamente os alicerces da prosperidade, prestígio e boa vontade dos EUA no mundo, ele contribui para um declínio do poder americano, tanto duro quanto brando, que beneficiará as autocracias estrangeiras que ele tanto admira. Aqui reside a terceira inovação autocrática de Trump.

Muitos dos ditadores mais notórios do mundo levaram os seus países à ruína, como cortando a assistência pública (Augusto Pinochet, do Chile), apropriando-se de fundos para si mesmos e os seus comparsas (Mobutu Sese Seko, no Congo, Muammar el-Qaddafi e Putin, na Líbia), ou envolvendo-se em guerras catastróficas ou campanhas revolucionárias (Benito Mussolini, Adolf Hitler e Mao Zedong). Mas a administração Trump é incomum em seu aparente compromisso de destruir os pilares da prosperidade de longo prazo dos EUA - educação, saúde, pesquisa e política climática - e dizimar a confiança e a boa vontade em relação aos EUA no exterior.

Embora quase todos os autocratas politizem a ciência e a medicina, a maioria avança gradualmente para mudar o arcabouço institucional em que essas disciplinas são praticadas. Os nazis só criaram o Ministério do Reich para a Ciência, Educação e Cultura em maio de 1934, mais de um ano após a Lei de Habilitação conceder a Hitler poder irrestrito. Em contraste, Trump destruiu a capacidade científica dos Estados Unidos quase imediatamente ao retornar à Casa Branca, cortando o financiamento federal para pesquisa e restringindo o trabalho das instituições mais prestigiadas do país, como os Institutos Nacionais de Saúde. Até mesmo o trabalho com cancros infantis foi desfinanciado.

A determinação fanática demonstrada por oficiais de Trump nesse processo se assemelha à mentalidade de funcionários fascistas e comunistas, incluindo aqueles que implementaram a devastação da ciência e da medicina chinesas por Mao durante a Revolução Cultural. Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde e serviços humanos de Trump - que frequentemente defende a medicina charlatã em vez da ciência legítima - arquitetou a saída de quase um quarto de seu departamento (20.000 trabalhadores) em apenas alguns meses.

“Em rajadas rápidas”, a administração Trump “demitiu grandes equipes de cientistas, encerrou milhares de projetos de pesquisa e propôs cortes profundos nos gastos para novos estudos”, informou o The New York Times em agosto, acrescentando que o corte orçamental proposto de 44 bilhões de dólares para o próximo ano seria “a maior queda no apoio federal à ciência desde a Segunda Guerra Mundial.” A ciência tem sido “há muito tempo um dos principais motores da preeminência global dos EUA”, escreve o jornalista do Guardian Robert Tait, e por isso ela precisa ser destruída.

Essa iniciativa, juntamente com a redução mais ampla da presença de soft power dos EUA e o recuo da liderança global, está a criar as condições para que a doutrina da “multipolaridade” defendida por autocratas como Putin e o presidente chinês Xi Jinping tenha sucesso. A China já está a intervir para preencher as lacunas deixadas pelos EUA como fabricante de energia limpa e parceiro comercial. Nesse sentido, é a China que a MAGA está “fazendo muito bem”.

Como outras inovações de Trump, o esforço para desmontar o prestígio e o poder dos EUA parece ser projetado para obter resultados o mais rápido possível, independentemente dos custos humanitários. A destruição pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que salvou cerca de 92 milhões de vidas nas últimas duas décadas, mostra o quão altos esses custos podem ser.

Dhruv Khullar, médico e professor da Weill Cornell Medicine, enquadra corretamente os ataques da administração Trump à formação médica e à inovação biomédica como “subversão”. Essa é a palavra certa, e deveria ser aplicada de forma mais ampla. Enquanto a administração Trump, e os seus apoiantes políticos e seu aparato ideológico trabalham arduamente para destruir a estabilidade dos EUA e o bem-estar dos americanos, eles não estão apenas a acelerar a transição do país de uma sociedade livre para uma autocracia. O deles é um esforço holístico para derrubar uma superpotência.


Ruth Ben-Ghiat

Dec 5, 2025

Ruth Ben-Ghiat, professora de História e Estudos Italianos na Universidade de Nova York, é autora de Strongmen: Mussolini to the Present (W.W. Norton & Company, 2020).

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Uma simbologia sobre a chegada dos Cavaleiros do Apocalipse

 


Os Cavaleiros do Apocalipse simbolizam poder, conflito e desgraça, e são parte da profecia cristã sobre os "últimos dias". São quatro figuras simbólicas do livro bíblico de Apocalipse. Representam calamidades que precedem o fim do mundo: Conquista (ou Pestilência), Guerra, Fome e Morte são acompanhada de Hades, Deus dos infernos e do submundo dos mortos e das riquezas subterrâneas.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Como eu gosto de ser emocionalmente instrumentalizado!

 

A primeira volta das eleições presidenciais já lá vai.
Preparemo-nos agora para a segunda volta.

AGORA NA SEGUNDA VOLTA

E o que aconteceu na primeira volta

A instrumentalização em política é o uso de pessoas, grupos de pessoas duma sociedade para atingir determinados fins e está ligada a emoções, sentimentos, atitudes e comportamentos inerentes ao ser humano que variam em função da cultura, família, etnia, entre outros.

A atitude política tem uma componente afetiva e é uma resposta emotiva face a determinado acontecimento social, pessoa, seja ela política, ou não, e apresenta-se sob a forma de ideia favorável ou desfavorável em relação a essa pessoa ou acontecimento e pode ter uma componente que se costuma confundir com afeto, emoção e sentimento. Os três conceitos referem-se ao que sentimos, mas distinguem-se pelo modo como são expressos.

Como podemos associar estes sentimentos a tomadas de decisões eleitorais. Os comportamentos eleitorais são ações e decisões de indivíduos ou grupos durante um determinado período que se revelam como votamos, porque apoiamos determinados candidatos ou partidos e por que os apoiamos e sobre os quais somos afetados pelas influências que moldam as nossas escolhas.

Há vários estudos publicados sobre o comportamento eleitoral dos eleitores como por exemplo “Emoções e Comportamento Eleitoral em Portugal” de José Manuel Rivera Otero, Nieves Lagares Diez, Erika A carta de Trump à Noruega deveria ser a gota d'água Gulías, Patrício Costaé publicado em novembro de 2025, edição do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que coloca as emoções no centro da explicação do comportamento político e eleitoral em Portugal. É crucial para entender a dinâmica da participação e da representação política, pois revela padrões no envolvimento dos eleitores e os fatores subjacentes que impulsionam os resultados eleitorais.

A atitude eleitoral é complexa porque faz também parte dum conjunto complexo de sentimentos, crenças e disposições individuais que os eleitores têm em relação à política, aos partidos e aos candidatos que ajudam a moldar o seu comportamento e a escolha do voto. Estas escolhas são muitas vezes enraizadas por fatores psicológicos, identidade social, confiança, ou até lealdade partidária, tradições culturais que funcionam como um atalho para a tomada de decisões.

Contudo, em política não existem apenas lógica, racionalidade e ideologia, há também outros aspetos emocionais usados como estímulos pelos políticos consoante os objetivos, as pessoas ou grupos sociais, tendo em vista motivar atitudes políticas e eleitorais.

Durante as campanhas muitos políticos utilizam as emoções dos potenciais eleitores como ferramenta de mobilização. Frequentemente constroem e manipulam emoções de forma estratégica, utilizando discursos, imagens e narrativas para incitar sentimentos como o medo, raiva, compaixão ou orgulho nacional. Essas emoções podem ser usadas não apenas para fortalecer a coesão social, mas também para legitimarem decisões políticas ou mobilizar a população em torno de causas específicas. Por exemplo, imagens de tragédias ou discursos de vitimização são frequentemente empregues para gerar empatia e apoio, veja-se o caso do Primeiro-Ministro Luís Montenegro que, mais do que uma vez, usou essa estratégia com sucesso, nomeadamente aquando da apresentação de uma moção de confiança ao Parlamento sobre o caso Spinumviva.

Mas, temos ainda visitas de candidatos a locais religiosos que têm grande impacto na religiosidade das populações tal como fez Marques Mendes durante a sua visita a Fátima onde se deixou fotografar junto a imagens religiosas. A hipocrisia parece estar validada nos políticos e na política.  O uso da família para obter vantagem eleitoral tem sido para Marques Mendes, comentador- mor, um ato de propaganda eleitoral. Em Leiria, durante um almoço com empresários, Sofia Marques Mendes, mulher do candidato presidencial, subiu ao púlpito para uma declaração de amor: “Todos os dias consegues surpreender com a tua generosidade e sentido de missão.” “Amo-te”, declarou em frente a todos os convidados.

Mas esta participação na campanha não ficou por aqui. Segundo o jornal Público, numa breve mensagem que leu do telemóvel, Sofia Marques Mendes começou por referir que gosta de “passar despercebida”, mas que desde a primeira hora não podia “ser egoísta” e decidiu estar “fisicamente” ao lado do candidato durante a campanha e “mostrar publicamente o orgulho” que tem nele. E mete ao barulho o resto da família dizendo que “realmente sente” que Luís Marques Mendes é a “pessoa mais certa” para o cargo de Presidente da República, “pelos filhos e netos de todos nós”. De resto, o neto mais novo do candidato, de apenas um mês, esteve presente na iniciativa.

Este é um exemplo de como o provocar emoções pode desempenhar um papel central e multifacetado na política influenciando a formação de atitudes e opiniões públicas, a mobilização coletiva e a legitimação de políticas. O uso das emoções passou a ser reconhecidas como elementos fundamentais para compreender a estrutura para a chegada ao poder.

As emoções estão intimamente ligadas à polarização partidária e à formação de identidades políticas. Sentimentos como raiva, medo e ansiedade podem ser usados como incentivos para angariação política, mas também para o aumento da intolerância e da divisão social. A combinação de várias emoções em torno de um evento ou numa narrativa de campanha eleitoral é frequentemente utilizado para criar identidades políticas e mobilizar massas.

Escândalos, discursos emocionais e imagens que tenham impacto são usados para influenciar a opinião pública e direcionar o debate político, assim como o uso estratégico das emoções pela comunicação social tanto pode fortalecer como enfraquecer a confiança nas instituições e nos próprios meios de comunicação. Veja o caso da estratégia de André Ventura do partido “Chega”.