Numa conversa com um amigo fiquei surpreendido com um ponto de vista estranho no que se refere aos jornais e à comunicação social num contexto em que eu afirmara que a minha fonte de determinada informação sobre a qual estávamos a debater fora a imprensa, por acaso até estrangeira. O argumento foi mais ou menos este: “Então ainda acreditas no que dizem os jornais?” Ou, colocado noutros termos: “Achas que tudo o que os jornais dizem é verdade”? Assaltou-me uma dúvida: então, sendo assim, não temos fontes de informação credíveis a que possamos recorrer?
O questionamento sobre a
confiança nos media levanta dúvidas pertinentes acerca das nossas fontes de
informação. O ponto de vista apresentado, que coloca em causa a veracidade do
que é veiculado pelos meios de comunicação social, serve como ponto de partida
para uma reflexão mais profunda: estaremos condenados a viver num ambiente
dominado pela mentira, pelas fake news e pela pós-verdade?
A dúvida e o descrédito lançados
aos órgãos de comunicação social não são meramente acidentais ou consequência
de um erro esporádico; tratam-se de estratégias intencionais que visam
convencer o público de que é legítimo desconfiar dos media quando estes transmitem,
por lapso, informações distorcidas, falsas ou omissas. A inquietação gerada por
essa postura revela-se não só na perceção de que as notícias podem ser
manipuladas, mas também no impacto que tal descrédito tem sobre a confiança
coletiva.
Ao questionar a legitimidade da
informação veiculada pelos jornais e outros meios de comunicação, cria-se um
ambiente em que a credibilidade destes órgãos é constantemente posta em causa.
Esta prática alimenta a insegurança e a dúvida quanto à veracidade do que é
publicado, levando muitos a procurar alternativas informativas, mesmo que estas
não possuam mecanismos de validação rigorosos. Assim, a desconfiança é
fomentada tanto pelo reconhecimento de falhas reais como pela disseminação de
acusações que, muitas vezes, carecem de fundamento, contribuindo para um
cenário cada vez mais fragmentado e vulnerável à desinformação.
Se aceitarmos como verdade que a
comunicação social atua desta forma, a confiança na informação jornalística
fica severamente abalada, abrindo espaço para a ascensão de canais alternativos
e das redes sociais como fontes principais de informação.
Neste cenário, torna-se
preocupante pensar que, em vez de recorrer aos meios tradicionais, passemos a
confiar mais nas redes sociais e em canais alternativos, muitas vezes
desprovidos de mecanismos de verificação e validação das informações
partilhadas. Este deslocamento pode contribuir para um ambiente informativo
mais fragmentado e vulnerável à desinformação.
Por outro lado, será que não acreditam na informação e
factos apresentados pela comunicação social porque estes vão no sentido contrário
ao que eles próprio acreditam e acabam por desmentir tudo quanto sabem por outros
canais informativos?
Há quem ache que não devemos acreditar nos media pelas
razões já apontadas porque lhes convém acreditar noutras fontes vão de acordo aos
seus pontos de vista. E o inverso não será
verdadeiro?
A resposta a tantas perguntas e
dúvidas relacionadas com este tema é complexa e exige uma análise cuidadosa das
diversas perspetivas envolvidas. No entanto, é possível procurar caminhos para
essa compreensão, recorrendo a métodos já estabelecidos no campo das ciências
sociais. Uma das estratégias que utilizei foi a pesquisa documental que permitiu
reunir, analisar e interpretar informações contidas em documentos diversos, fossem
eles notícias, estudos académicos, relatórios ou dados estatísticos. Esta
abordagem facilita a identificação de padrões e tendências no modo como a
credibilidade do jornalismo tem sido questionada e debatida publicamente. Isto
permitiu-me fundamentar melhor as reflexões e argumentos, apoiado em fontes
verificáveis e em análises já anteriormente realizadas. Assim, a pesquisa
documental foi uma ferramenta essencial para procurar compreender os fatores
que contribuem para o declínio da confiança nos meios de comunicação social e
para a ascensão de fontes alternativas de informação.
O jornalismo enfrenta uma onda de suposto declínio da
sua credibilidade ao que acresce a falta de recursos financeiros devido à
quebra de vendas. Como é sabido e tem sido divulgado é um efeito cumulativo de
fatores tecnológicos, económicos, políticos e culturais. Sobre este tema há vários
estudos e sondagens sobre a confiança nos media em Portugal que pode ver aqui
e aqui,
este último com dados de 2023.
As causas são várias
e já investigadas e avaliadas em vários estudos como a tese
de doutoramento do ISCTE “Desafios no Jornalismo e sustentabilidade no sector
da Imprensa escrita”.
Uma das causas parece ser a procura de informação,
supostamente credível, que transitou para as redes sociais onde são premiadas
as emoções extremas que geram interações e vantagens lucrativas para as
empresas que gerem essas fontes.
Não há dúvidas do impacto que a internet e as redes
sociais têm no declínio do jornalismo. É que a velocidade e a pressão para
publicar primeiro reduziu o tempo de reflexão nas redações. Uma outra vantagem
das redes é que políticos, empresas e influenciadores falam direto com o
público, sem o “filtro” jornalístico. Como tal tudo é aceite pelos que procuram
avidamente estes meios para se informar sem a validação das fontes pelo que são
minados por conteúdos imprecisos, falsos, emocionais e polarizadores.
Quem frequenta aquelas redes rapidamente verifica que
abundam a ira, o escândalo e o ódio que têm mais capacidade de gerar interações
do que aqueles que pretendem cativar, o que é demonstrado pelos posts, memes,
imagens e vídeos agressivos que batem recordes de visualizações. Através destes meios incitam-se opositores
ideológicos e quem reage contra está a contribuir para os difundir ainda mais.
Os radicais, sejam eles de qualquer posicionamento ideológico
forem, não pretendem debater, mas sim prender-nos na disputa das respostas e réplicas,
a maior parte das vezes sem nexo e descontextualizadas. Estes incitadores ao verificar
que não são comentados nem lhes são creditados likes são gente que ficam
mais frustrada com o nosso silêncio do que com o nosso protesto.
Os meios de comunicação
tradicionais, tais como redes de televisão, jornais e rádio, historicamente
dominaram o discurso público, servindo de referência para a construção de
narrativas sociais e políticas. Contudo, nos
dias de hoje, enfrentam uma significativa perda de credibilidade e redução
na participação da audiência. Essa mudança é explicada, em parte, pelo facto de
muitos indivíduos passarem a considerar que esses veículos refletem apenas as
narrativas dominantes, o que gera desconfiança e afastamento.
Esta queda de audiência nos media
convencionais está diretamente relacionada com o crescente direcionamento de
parte do público para plataformas alternativas, como redes sociais e outros
canais informativos. Nessas novas fontes, proliferam frequentemente notícias
falsas ou manipuladas, que atraem consumidores de informação pela ausência de
filtros jornalísticos e mecanismos de validação. Esse deslocamento contribui
para a fragmentação do ambiente informativo, tornando-o mais vulnerável à
desinformação e dificultando a construção de consensos sociais fundamentados em
fatos objetivos.
Ao longo dos anos gerou-se uma polarização política e
ideológica por parte do público que passou a ver a imprensa e a comunicação
social em geral não como mediadora, mas como ator político, (supostamente
enfeudada aos poderes). Daqui acusações constantes do jornalismo ser parcial apregoadas
por diferentes quadrantes consoante os interesses dos vários grupos sociais,
políticos e ideológicos.
É cada vez mais comum que as
pessoas procurem e confiem em veículos de comunicação que confirmem as suas
próprias crenças, rejeitando informações dos media tradicionais quando estas
contrariam aquilo em que acreditam. Este comportamento, conhecido como viés de
confirmação, contribui para a polarização do debate público e para o declínio
da confiança na imprensa. Estudos recentes demonstram que, perante factos que
desafiam as suas convicções, muitos preferem desacreditar as fontes
tradicionais e recorrer a alternativas que reforcem a sua visão do mundo, mesmo
que isso implique ignorar evidências objetivas.
Passou a ser corrente ataques sistemáticos aos media
(imprensa e televisões) por parte de alguns políticos e líderes partidários, sempre
que as notícias não lhes são favoráveis, ou quando são omitidas declarações que
desejariam fossem divulgadas segundo a sua estratégia política preferindo minar
a confiança no jornalismo mesmo quando as reportagens são corretas e factuais. Quantas
vezes já não assistimos, mesmo no nosso país, a este tipo de observações.
André Ventura, líder do partido Chega, chegou a
afirmar aos jornalistas que “Vocês
foram os verdadeiros disseminadores de notícias falsas. E foram, sobretudo, o
inimigo do povo que é aquele que
tenta manipular o povo em prol de uma ideia política”, quando André Ventura
respondeu com ataques aos jornalistas, depois de ter sido divulgada uma
interação, durante a campanha, entre o líder do Chega e um migrante, que o acusou
de ser racista. Numa entrevista ao Now Canal chegou mesmo a dizer que “O
jornalismo em Portugal tornou-se um VERDADEIRO ESGOTO!” A questão que se coloca
é quem é o difusor de notícias e afirmações falsas, são os jornalistas ou será
ele e o seu partido através de verbalizações e de vídeos nas suas redes sociais.”
Nos
EUA temos o caso do presidente Trump quando, em novembro de 2025, uma correspondente
da Bloomberg na Casa Branca, aproveitou uma oportunidade de imprensa com o
presidente e fez uma pergunta sobre o escândalo e sobre a divulgação de
documentos do caso Jeffrey Epstein e da possibilidade de a Câmara votar pela
libertação de todos os arquivos relacionados ao seu caso. “Cala-te. Cala-te,
porquinha”, afirmou Trump, apontando o dedo a Catherine Lucey quando começou a
perguntar por que Trump estava a agir daquele modo “se não há nada incriminador
nos arquivos”, Trump apontou para ela e disse: “Silêncio. Silêncio, porquinha.”
Uma das causas principal do descrédito público do
jornalismo é o aumento das críticas dirigidas aos media institucionais por
políticos e comentadores, e até presidentes ou governantes. Isto é, a
deslegitimação deliberada da comunicação social pelas “elites”. Desacreditar os media pode
ser usado como tática para neutralizar reportagens incómodas e moldar perceções
eleitorais.
Nos meios populistas
e radicais de extrema-direita passou a ser corrente a ideia de factos
alternativos e da “pós-verdade” expressão utilizada para descrever informações
falsas, interpretações distorcidas ou narrativas inventadas que são
apresentadas como verdadeiras, muitas vezes para contornar factos objetivos e factuais.
Neste contexto crenças pessoais influenciam mais a opinião pública do que a
realidade. Ou seja, para esses defensores a verdade é tudo o que seja revelado
em seu favor. Veja-se no caso português os diversos vídeos e mensagens publicados
nas redes sociais por André Ventura e pelo partido Chega.
A era da pós-verdade
caracteriza-se por uma crescente desvalorização dos factos objetivos em prol de
convicções pessoais, frequentemente alimentadas por fake news que
circulam de forma viral nas redes sociais. Este fenómeno faz com que opiniões e
crenças individuais assumam maior importância do que evidências concretas,
permitindo que cada um acredite no que deseja, independentemente de provas
científicas ou históricas. A pós-verdade, manipulação moderna que prospera em
ambientes onde factos objetivos influenciam menos as emoções e crenças
pessoais.
As notícias falsas ganham força
num ambiente digital onde a informação circula sem filtros jornalísticos
rigorosos. A sua propagação massiva contribui para consolidar discursos
populistas e negacionistas, enfraquecendo o papel das evidências objetivas e do
conhecimento especializado. Ao mesmo tempo, experiências subjetivas e perceções
pessoais passam a ser equiparadas a factos, o que mina a credibilidade de
estudos científicos e de especialistas.
Neste contexto, a pós-verdade
revela-se como uma verdadeira “arte da manipulação de multidões”, onde mentiras
são estrategicamente construídas para se assemelharem à verdade e, assim,
influenciar o comportamento social. Artigos pseudocientíficos, sem validação
por pares, circulam amplamente, agravando o cenário de desinformação.
Consequentemente, a manipulação moderna prospera num ambiente em que os factos
objetivos têm cada vez menos impacto sobre as emoções e as crenças pessoais,
contribuindo para o descrédito da ciência e do jornalismo.

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