segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A quem interessa a desacreditação do jornalismo

 

Numa conversa com um amigo fiquei surpreendido com um ponto de vista estranho no que se refere aos jornais e à comunicação social num contexto em que eu afirmara que a minha fonte de determinada informação sobre a qual estávamos a debater fora a imprensa, por acaso até estrangeira. O argumento foi mais ou menos este: “Então ainda acreditas no que dizem os jornais?” Ou, colocado noutros termos: “Achas que tudo o que os jornais dizem é verdade”? Assaltou-me uma dúvida: então, sendo assim, não temos fontes de informação credíveis a que possamos recorrer?

O questionamento sobre a confiança nos media levanta dúvidas pertinentes acerca das nossas fontes de informação. O ponto de vista apresentado, que coloca em causa a veracidade do que é veiculado pelos meios de comunicação social, serve como ponto de partida para uma reflexão mais profunda: estaremos condenados a viver num ambiente dominado pela mentira, pelas fake news e pela pós-verdade?

A dúvida e o descrédito lançados aos órgãos de comunicação social não são meramente acidentais ou consequência de um erro esporádico; tratam-se de estratégias intencionais que visam convencer o público de que é legítimo desconfiar dos media quando estes transmitem, por lapso, informações distorcidas, falsas ou omissas. A inquietação gerada por essa postura revela-se não só na perceção de que as notícias podem ser manipuladas, mas também no impacto que tal descrédito tem sobre a confiança coletiva.

Ao questionar a legitimidade da informação veiculada pelos jornais e outros meios de comunicação, cria-se um ambiente em que a credibilidade destes órgãos é constantemente posta em causa. Esta prática alimenta a insegurança e a dúvida quanto à veracidade do que é publicado, levando muitos a procurar alternativas informativas, mesmo que estas não possuam mecanismos de validação rigorosos. Assim, a desconfiança é fomentada tanto pelo reconhecimento de falhas reais como pela disseminação de acusações que, muitas vezes, carecem de fundamento, contribuindo para um cenário cada vez mais fragmentado e vulnerável à desinformação.

Se aceitarmos como verdade que a comunicação social atua desta forma, a confiança na informação jornalística fica severamente abalada, abrindo espaço para a ascensão de canais alternativos e das redes sociais como fontes principais de informação.

Neste cenário, torna-se preocupante pensar que, em vez de recorrer aos meios tradicionais, passemos a confiar mais nas redes sociais e em canais alternativos, muitas vezes desprovidos de mecanismos de verificação e validação das informações partilhadas. Este deslocamento pode contribuir para um ambiente informativo mais fragmentado e vulnerável à desinformação.

Por outro lado, será que não acreditam na informação e factos apresentados pela comunicação social porque estes vão no sentido contrário ao que eles próprio acreditam e acabam por desmentir tudo quanto sabem por outros canais informativos?

Há quem ache que não devemos acreditar nos media pelas razões já apontadas porque lhes convém acreditar noutras fontes vão de acordo aos seus pontos de vista.  E o inverso não será verdadeiro?

A resposta a tantas perguntas e dúvidas relacionadas com este tema é complexa e exige uma análise cuidadosa das diversas perspetivas envolvidas. No entanto, é possível procurar caminhos para essa compreensão, recorrendo a métodos já estabelecidos no campo das ciências sociais. Uma das estratégias que utilizei foi a pesquisa documental que permitiu reunir, analisar e interpretar informações contidas em documentos diversos, fossem eles notícias, estudos académicos, relatórios ou dados estatísticos. Esta abordagem facilita a identificação de padrões e tendências no modo como a credibilidade do jornalismo tem sido questionada e debatida publicamente. Isto permitiu-me fundamentar melhor as reflexões e argumentos, apoiado em fontes verificáveis e em análises já anteriormente realizadas. Assim, a pesquisa documental foi uma ferramenta essencial para procurar compreender os fatores que contribuem para o declínio da confiança nos meios de comunicação social e para a ascensão de fontes alternativas de informação.

O jornalismo enfrenta uma onda de suposto declínio da sua credibilidade ao que acresce a falta de recursos financeiros devido à quebra de vendas. Como é sabido e tem sido divulgado é um efeito cumulativo de fatores tecnológicos, económicos, políticos e culturais. Sobre este tema há vários estudos e sondagens sobre a confiança nos media em Portugal que pode ver aqui e aqui, este último com dados de 2023.

As  causas são várias e já investigadas e avaliadas em vários estudos como a tese de doutoramento do ISCTE “Desafios no Jornalismo e sustentabilidade no sector da Imprensa escrita”.

Uma das causas parece ser a procura de informação, supostamente credível, que transitou para as redes sociais onde são premiadas as emoções extremas que geram interações e vantagens lucrativas para as empresas que gerem essas fontes.

Não há dúvidas do impacto que a internet e as redes sociais têm no declínio do jornalismo. É que a velocidade e a pressão para publicar primeiro reduziu o tempo de reflexão nas redações. Uma outra vantagem das redes é que políticos, empresas e influenciadores falam direto com o público, sem o “filtro” jornalístico. Como tal tudo é aceite pelos que procuram avidamente estes meios para se informar sem a validação das fontes pelo que são minados por conteúdos imprecisos, falsos, emocionais e polarizadores.

Quem frequenta aquelas redes rapidamente verifica que abundam a ira, o escândalo e o ódio que têm mais capacidade de gerar interações do que aqueles que pretendem cativar, o que é demonstrado pelos posts, memes, imagens e vídeos agressivos que batem recordes de visualizações.  Através destes meios incitam-se opositores ideológicos e quem reage contra está a contribuir para os difundir ainda mais.

Os radicais, sejam eles de qualquer posicionamento ideológico forem, não pretendem debater, mas sim prender-nos na disputa das respostas e réplicas, a maior parte das vezes sem nexo e descontextualizadas. Estes incitadores ao verificar que não são comentados nem lhes são creditados likes são gente que ficam mais frustrada com o nosso silêncio do que com o nosso protesto.

Os meios de comunicação tradicionais, tais como redes de televisão, jornais e rádio, historicamente dominaram o discurso público, servindo de referência para a construção de narrativas sociais e políticas. Contudo, nos dias de hoje, enfrentam uma significativa perda de credibilidade e redução na participação da audiência. Essa mudança é explicada, em parte, pelo facto de muitos indivíduos passarem a considerar que esses veículos refletem apenas as narrativas dominantes, o que gera desconfiança e afastamento.

Esta queda de audiência nos media convencionais está diretamente relacionada com o crescente direcionamento de parte do público para plataformas alternativas, como redes sociais e outros canais informativos. Nessas novas fontes, proliferam frequentemente notícias falsas ou manipuladas, que atraem consumidores de informação pela ausência de filtros jornalísticos e mecanismos de validação. Esse deslocamento contribui para a fragmentação do ambiente informativo, tornando-o mais vulnerável à desinformação e dificultando a construção de consensos sociais fundamentados em fatos objetivos.

Ao longo dos anos gerou-se uma polarização política e ideológica por parte do público que passou a ver a imprensa e a comunicação social em geral não como mediadora, mas como ator político, (supostamente enfeudada aos poderes). Daqui acusações constantes do jornalismo ser parcial apregoadas por diferentes quadrantes consoante os interesses dos vários grupos sociais, políticos e ideológicos.

É cada vez mais comum que as pessoas procurem e confiem em veículos de comunicação que confirmem as suas próprias crenças, rejeitando informações dos media tradicionais quando estas contrariam aquilo em que acreditam. Este comportamento, conhecido como viés de confirmação, contribui para a polarização do debate público e para o declínio da confiança na imprensa. Estudos recentes demonstram que, perante factos que desafiam as suas convicções, muitos preferem desacreditar as fontes tradicionais e recorrer a alternativas que reforcem a sua visão do mundo, mesmo que isso implique ignorar evidências objetivas.

Passou a ser corrente ataques sistemáticos aos media (imprensa e televisões) por parte de alguns políticos e líderes partidários, sempre que as notícias não lhes são favoráveis, ou quando são omitidas declarações que desejariam fossem divulgadas segundo a sua estratégia política preferindo minar a confiança no jornalismo mesmo quando as reportagens são corretas e factuais. Quantas vezes já não assistimos, mesmo no nosso país, a este tipo de observações.

André Ventura, líder do partido Chega, chegou a afirmar aos jornalistas que “Vocês foram os verdadeiros disseminadores de notícias falsas. E foram, sobretudo, o inimigo do povo  que é aquele que tenta manipular o povo em prol de uma ideia política”, quando André Ventura respondeu com ataques aos jornalistas, depois de ter sido divulgada uma interação, durante a campanha, entre o líder do Chega e um migrante, que o acusou de ser racista. Numa entrevista ao Now Canal chegou mesmo a dizer que “O jornalismo em Portugal tornou-se um VERDADEIRO ESGOTO!” A questão que se coloca é quem é o difusor de notícias e afirmações falsas, são os jornalistas ou será ele e o seu partido através de verbalizações e de vídeos nas suas redes sociais.”

Nos EUA temos o caso do presidente Trump quando, em novembro de 2025, uma correspondente da Bloomberg na Casa Branca, aproveitou uma oportunidade de imprensa com o presidente e fez uma pergunta sobre o escândalo e sobre a divulgação de documentos do caso Jeffrey Epstein e da possibilidade de a Câmara votar pela libertação de todos os arquivos relacionados ao seu caso. “Cala-te. Cala-te, porquinha”, afirmou Trump, apontando o dedo a Catherine Lucey quando começou a perguntar por que Trump estava a agir daquele modo “se não há nada incriminador nos arquivos”, Trump apontou para ela e disse: “Silêncio. Silêncio, porquinha.”

Uma das causas principal do descrédito público do jornalismo é o aumento das críticas dirigidas aos media institucionais por políticos e comentadores, e até presidentes ou governantes. Isto é, a deslegitimação deliberada da comunicação social pelas “elites”. Desacreditar os media pode ser usado como tática para neutralizar reportagens incómodas e moldar perceções eleitorais.

 Nos meios populistas e radicais de extrema-direita passou a ser corrente a ideia de factos alternativos e da “pós-verdade” expressão utilizada para descrever informações falsas, interpretações distorcidas ou narrativas inventadas que são apresentadas como verdadeiras, muitas vezes para contornar factos objetivos e factuais. Neste contexto crenças pessoais influenciam mais a opinião pública do que a realidade. Ou seja, para esses defensores a verdade é tudo o que seja revelado em seu favor. Veja-se no caso português os diversos vídeos e mensagens publicados nas redes sociais por André Ventura e pelo partido Chega.

A era da pós-verdade caracteriza-se por uma crescente desvalorização dos factos objetivos em prol de convicções pessoais, frequentemente alimentadas por fake news que circulam de forma viral nas redes sociais. Este fenómeno faz com que opiniões e crenças individuais assumam maior importância do que evidências concretas, permitindo que cada um acredite no que deseja, independentemente de provas científicas ou históricas. A pós-verdade, manipulação moderna que prospera em ambientes onde factos objetivos influenciam menos as emoções e crenças pessoais.

As notícias falsas ganham força num ambiente digital onde a informação circula sem filtros jornalísticos rigorosos. A sua propagação massiva contribui para consolidar discursos populistas e negacionistas, enfraquecendo o papel das evidências objetivas e do conhecimento especializado. Ao mesmo tempo, experiências subjetivas e perceções pessoais passam a ser equiparadas a factos, o que mina a credibilidade de estudos científicos e de especialistas.

Neste contexto, a pós-verdade revela-se como uma verdadeira “arte da manipulação de multidões”, onde mentiras são estrategicamente construídas para se assemelharem à verdade e, assim, influenciar o comportamento social. Artigos pseudocientíficos, sem validação por pares, circulam amplamente, agravando o cenário de desinformação. Consequentemente, a manipulação moderna prospera num ambiente em que os factos objetivos têm cada vez menos impacto sobre as emoções e as crenças pessoais, contribuindo para o descrédito da ciência e do jornalismo.

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