Não resisti em sintetizar um artigo de Bárbara Reis que
saiu hoje no Público
titulado como “Ventura é do sistema na teoria e na prática” a que dei o
título
O texto de Bárbara Reis argumenta que André Ventura,
apesar de se apresentar como candidato “antissistema”, não rompe com o
sistema nem na teoria nem na prática.
1. A retórica do “sistema”
Ventura insiste que o seu projeto é de “rutura com o
sistema”, mas:
- Nunca define claramente o que é “o sistema”.
- Usa o termo como chavão político.
- Apresenta propostas que já existem, já foram discutidas ou são
comuns a outros partidos.
2. Quais as propostas do Chega para “mudar o sistema”?
Bárbara Reis passa ponto a ponto e mostra que nada é
realmente inovador:
a) Círculo nacional de compensação
- É a proposta mais destacada pelo Chega.
- Já existe nos Açores e já foi defendida por IL, BE e PAN.
- Não favorece nenhum partido de forma previsível.
- É uma tendência amplamente aceite não é uma rutura.
b) Redução do número de deputados
- Portugal já está abaixo da média europeia.
- Reduzir para 100 a 180 comprometeria a fiscalização, o pluralismo e o
funcionamento parlamentar.
- A autora questiona o que deixaria de ser feito.
c) Redução do número de ministérios
- Governos anteriores já tiveram entre 11 e 16 ministros.
- Nada de novo ou transformador.
d) Fim das isenções fiscais aos partidos
- Pode aumentar dependência dos partidos dos privados e logo a opacidade.
e) Reforço da Entidade das Contas
- Medida normal e já considerada como necessária por vários partidos.
f) Fim das pensões vitalícias e acumulações
- Pensões vitalícias foram extintas em 2005.
- Restam apenas 242 beneficiários, que desaparecerão com o tempo.
- A retroatividade seria inconstitucional.
g) Alteração das imunidades parlamentares
- O Parlamento quase sempre levanta imunidades quando solicitado.
h) Redução de juízes eleitos pelo Parlamento
- O Parlamento só elege 10 dos 13 juízes do Tribunal Constitucional.
- Não é uma mudança estrutural.
3. Ventura “é do sistema” também na prática
A autora aponta:
- Nomeações polémicas em câmaras lideradas pelo Chega (Albufeira,
Lisboa):
- Bruno Mascarenhas contratou ainda a filha de um dirigente do partido
e chamou uma cabeleireira para a assessoria de espaços verdes. Namorada
de vereador do Chega com ‘tacho’ na Câmara de Lisboa.
- Falta de rigor, mérito e transparência.
- Comportamentos iguais aos que o partido critica.
Conclusão
O artigo defende que:
- Ventura usa a retórica antissistema, mas as suas propostas
são banais, já existentes ou insignificantes.
- Na prática, o Chega reproduz comportamentos típicos do
sistema político que diz combater.
Em síntese:
A leitura do artigo revela uma tese central: a
retórica antissistema do Chega e das suas propostas não tem consistência nem correspondem
às suas práticas políticas. A autora desmonta a narrativa de rutura mostrando
que as medidas apresentadas são, na verdade, convencionais, já existentes ou
politicamente inócuas.
O ponto mais forte da crítica reside na demonstração
de que o Chega não redefine o sistema, apenas o descreve de forma vaga
para mobilizar ressentimento. A ausência de uma definição operacional de
“sistema” impede qualquer avaliação séria da alegada rutura. Isto coloca o
discurso do partido no campo do populismo clássico: identificação de um
inimigo difuso, promessa de purificação e simplificação da política.
A análise das propostas evidencia que:
- Algumas medidas são copiadas de outros partidos ou já estão
implementadas (ex: círculo de compensação).
- Outras são contraproducentes ou tecnicamente frágeis (redução
drástica de deputados).
- Outras ainda são irrelevantes ou já resolvidas (pensões vitalícias).
A crítica mais contundente surge quando a autora passa
da teoria à prática: os casos de nomeações pouco transparentes em autarquias
lideradas pelo Chega revelam que o partido reproduz os mesmos padrões que
denuncia. A acusação de hipocrisia de Ventura é, portanto, sustentada por
evidência empírica.
Em resumo o artigo argumenta que o Chega não é antissistema,
mas sim um ator plenamente integrado no sistema, que utiliza a retórica antissistema
como instrumento de mobilização e não como programa de transformação
institucional.
