quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Uma espécie de Dr Jekyll e Dr Hyde ou a narrativa do empadão

 

Hoje ao assistir, mais uma vez, às preleções do Dr. André Ventura, líder do partido Chega, recordei o conhecido conto “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde” que Stevenson escreveu em 1886 o qual já teve várias adaptações para o cinema e que explora a dualidade humana entre o bem e o mal.

A história anda à volta de um advogado que investiga a perturbadora relação entre o respeitável Dr. Henry Jekyll e o violento Edward Hyde, revelando que ambos são a mesma pessoa.

Na cultura popular a expressão “Jekyll and Hyde” é usada no para referir pessoas de natureza externamente boa, mas às vezes chocantemente malignas, ideia de como as personalidades humanas podem refletir a interação entre o bem e o mal, algumas vezes conforme as circunstâncias. Não será totalmente uma incógnita a causa por que o meu subconsciente me levou a tal associação! Parece haver uma moderação aparente nas intervenções que Ventura passou a apresentar na campanha para a segunda volta da eleição presidencial, mas que, para não perder a credibilidade perante os seus eleitores mantém o populismo do nós, o povo, contra eles, as elites e o sistema a sua face maligna e divisionista. 



Nesta perspetiva como se explica que um pensamento vincadamente de direita radical que sempre nega ser, mas que é mostrado pelas suas intervenções, e ao mesmo tempo esteja contra o novo pacote laboral colocando-se no mesmo campo dos partidos da esquerda radical e moderados que ele combate intensamente até com alguma raiva?

A sua insistência nos mesmo temas poderia levar André Ventura pensar em criar uma Liga dos Honestos (dos drs. Jekyll) que seria uma união “sagrada” de “gente de bem” que teria como objetivo procurar os desonestos, desmascará-los e depois persegui-los, prendê-los e, no limite, até matá-los. O nome que usei foi baseada numa referência literária mencionada num livro de Umberto Eco.

A alusão à corrupção que segundo ele parece ter invadido o país é tanta vez usada que seria uma boa ideia criar a tal Liga e destinar alguém para desmascarar os desonestos e corruptos e saber onde eles se encontram. Tais escolhidos teriam de se comportar de maneira desonesta para serem aceites e entrar no domínio dos desonestos.

Esta Liga, a ser criada, iria converter-se aos poucos numa Liga dos desonestos. O apelo ao combate à desonestidade e a corrupção “vende”, dá votos. E quem é contra a corrupção? Todos, o povo honesto, exceto os próprios corruptos, que é preciso combater. A fórmula mágica para a combater só o “guru” do partido Chega a saberá, mas parece que só a revelará quando for Governo.  Por agora limita-se a abordar generalidades e levar o povo honesto a contribuir para desinstalar as elites do sistema, talvez para criar outras que substituirão as anteriores.

Ventura cria narrativas sobre corrupção para captar os que são contra os corruptos e somos todos a não ser os próprios corruptos e, por isso, todos, sem exceção, deveríamos votar em Ventura. Assim, quem do povo tal não aceitar e não for contra o sistema (diga-se democrático) é porque são corruptos, ou desonestos, ou subsídio dependentes, ou não querem trabalhar. Então, apenas os que votam Ventura não fazem parte desta lista.

A virtuosidade, honestidade, pureza e religiosidade devota que são o apanágio de André Ventura que exibe na missa da tarde todos os domingos batendo no peito e elevando o olhar aos céus pleno de fé cristã. É essa fé cristã apostólica romana que o guia no ódio que emana contra grupos minoritários e no divisionismo que, como candidato à Presidência da República, anuncia ao dizer que não pretende ser o Presidente de todos os portugueses. Corruptos, minorias e quem tiver ideias diferentes ou opostas à suas, esses serão os excluídos e dos quais não será Presidente. Será um Presidente da República só para alguns.

As numerosas fotografias que Ventura publica ou faz publicar nas redes sociais e o seu desejo de estar presente nos canais televisivos evidenciando-se pela negativa pode ser demonstrativo dum narcisismo patológico.

André Ventura é um promotor do divisionismo entre os portugueses, “os verdadeiros portugueses”, “os de bem” com apelo à “exclusão e ao ódio” ao mesmo tempo um iliberal identificando-se com todos os partidos e personagens a começar em Viktor Orbán a quem já endossou o seu apoio.

O estudo “A comunicação política de André Ventura” (2025) mostra que Ventura revela uma estratégia marcadamente personalizada e centrada na sua figura enquanto líder do Chega. É neste quadro, entre outros, que o caso do Chega e de André Ventura com a proliferação de palavras repetitivas, mas com poucas ideias, acabam por representar um caminho relevante para percebermos o crescimento e a afirmação da direita radical em Portugal. Durante várias décadas assinalava-se o caso português, a par do espanhol, como paradigmáticos da ausência da direita radical no parlamento.

Sem pretensões de ofender o direito de opção de voto dos portugueses no partido Chega ou em André Ventura como candidato a Presidente da República há a perceção de que o voto está a ser determinado por um jogo emoções e motivações pessoais, sociais, de vizinhança, por parte dos insatisfeitos com os partidos da governação pode ser condicionante das suas escolhas, esquecendo que ao fim de cinco décadas o sistema democrático trouxe ao país. Há outros fatores como as redes sociais que podem impulsionar um maior envolvimento por parte dos utilizadores ao apelarem, nomeadamente às emoções.

A comunicação política de André Ventura no Instagram é altamente personalizada, destacando a sua imagem e identidade como figura central do partido, em detrimento de uma comunicação institucional do Chega. As publicações que contêm ataques a adversários políticos geram maior envolvimento por parte dos seguidores, em comparação com outros tipos de conteúdo.

O lugar central na comunicação de Ventura, sendo muitas vezes articulada com ataques à esquerda de forma genérica e sobretudo ao Partido Socialista reforça a estratégia de polarização ideológica. É também é evidente a tentativa de associar os partidos do sistema político tradicional, nomeadamente PS e PSD, a casos de corrupção e ineficácia, numa lógica de rejeição das elites e de apelo ao voto contra o “sistema”. Pretende que vigore neste ponto, a ideia do Chega como “única alternativa” face aos partidos que têm tido a responsabilidade de governar o país nas últimas décadas, mas sem sugerir quaisquer propostas objetivas.

De facto, há evidencias da predominância de dois grandes eixos temáticos: a corrupção, a segurança e a imigração, frequentemente abordados de forma interligada, como José Seguro classificou como um “empadão”. Com exceção da corrupção que aborda noutro patamar, esta associação constrói uma narrativa que apresenta a imigração como um fator de ameaça à ordem pública, alinhando-se com a retórica securitária e nacionalista que caracteriza o discurso político de Ventura. Estas temáticas surgem com muito maior frequência do que outras áreas fundamentais da governação de cuja propaganda nas redes sociais não aproveita o espaço online para a apresentação de propostas que nunca são concretamente especificadas.



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