Ao longo do tempo, tenho-me
questionado repetidamente sobre a real capacidade do candidato André Ventura à
Presidência da República em cumprir aquilo que proclama e promete ao
eleitorado. Essa inquietação tem-me acompanhado, alimentando um desejo
persistente de traduzir estas reflexões em palavras escritas. Agora, com a
inspiração finalmente presente, sinto-me compelido a partilhar estas
interrogações e ponderações de forma clara e estruturada.
O objetivo central desta reflexão
é expor e desmontar a construção ficcional que envolve a figura de André
Ventura na política nacional. O seu discurso, apresentado como solução para
todos os males do país, é sustentado por uma retórica autoritária e por uma
postura de severidade, frequentemente desprovida de empatia. Ventura não
demonstra, nas suas intervenções e propostas, qualquer traço de compaixão ou
respeito genuíno pelo próximo, valores fundamentais não só numa sociedade
democrática, mas também para quem se assume como católico e seguidor da fé
cristã.
É notório que Ventura, apesar de
se apresentar como alguém que cumpre os preceitos da religião católica,
frequentando regularmente a igreja e participando nas missas, não traduz esses
princípios nas suas ações políticas nem no trato com os outros. A distância
entre as exortações apostólicas do Papa - que sublinham o amor ao próximo, a
tolerância e o respeito pela dignidade humana - e a prática política de Ventura
é evidente. Esta incoerência levanta questões sobre a autenticidade e a
motivação das suas intenções, revelando um desfasamento entre o que proclama em
matéria de fé e o que efetivamente põe em prática enquanto agente político.
André Ventura não é uma figura de ficção, mas a
implementação do que diz e promete fazer, se for eleito, são na sua maior parte,
ficções populistas e eleitoralistas com algum cariz de autoritarismo.
Ventura não é um conciliador, não ostenta a tolerância
que os tempos exigem. O autoritarismo revela-se pelas pretensões a seguir os mais
autocratas da Europa e dos EUA como Donald Trump e as suas incongruências não têm
medida. Em 28 de agosto de 2024 Ventura afirmou que prefere que Donald Trump
vença as eleições norte-americanas do próximo dia 5 de novembro. Ainda assim,
André Ventura considera que nem o candidato republicano nem Kamala Harris
correspondem ao “melhor que a América podia ter”. Ventura tirou a máscara e
viu-se Donald Trump.
As propostas e promessas de André Ventura, são meras criações ficcionais
que adquirem contornos de ficções populistas e eleitoralistas quando analisadas
sob o prisma da sua viabilidade e fundamentação.Apesar de não ser uma personagem inventada para o
palco político, Ventura recorre frequentemente a discursos que, embora
formulados como respostas diretas aos problemas do país, não apresentam bases
realistas nem indicam caminhos exequíveis para a sua concretização. Assim,
estas promessas funcionam primordialmente como ferramentas de mobilização,
captando a atenção e as emoções do eleitorado, em vez de constituírem
verdadeiros projetos indicadores para a governação.
Ventura distancia-se de qualquer
papel conciliador que a conjuntura política contemporânea exige. O seu discurso
é marcado por uma clara ausência de tolerância, característica fundamental para
líderes que pretendem promover o entendimento e a coesão social. Esta postura é
acentuada pela inspiração em figuras autocráticas da Europa e dos Estados
Unidos, nomeadamente líderes como Donald Trump, reforçando o tom autoritário
que permeia as suas intervenções públicas. Tal abordagem, contrária aos
princípios do pluralismo e do diálogo democrático, evidencia um caminho
incompatível com a promoção do entendimento e do respeito mútuo na sociedade
portuguesa.
Nos últimos tempos, André
Ventura, líder do Chega e figura central da atualmente segunda força política
portuguesa, tem procurado reinventar o seu discurso e estratégia. Segundo
Manuel Carvalho, num artigo de opinião publicado no jornal Público em abril de
2025, Ventura evoluiu do simples recurso a declarações panfletárias ou
xenófobas, percebendo que o seu habitual tom agressivo já não bastava para
galvanizar o eleitorado e que as suas conhecidas invetivas contra corruptos e
ladrões começavam a perder impacto junto da opinião pública.
Perante esta constatação, Ventura
passou, em meados de 2025 a empunhar o bordão do nacionalismo económico,
alinhando-se com políticas protecionistas e de autarcia que remetem para a
abordagem implementada por Donald Trump nos Estados Unidos. A chamada “guerra
das tarifas”, desencadeada pelo presidente americano, serviu de inspiração para
Ventura procurar importar para Portugal uma retórica semelhante, defendendo a
imposição de tarifas e barreiras comerciais como solução para os problemas
económicos nacionais que posteriormente e estrategicamente abandonou.
Naquela altura do seu processo de
reinvenção Ventura afastava-se até da extrema-direita europeia, preferindo
rever-se na linha adotada por Trump e na lógica do “Make America Rich Again”
(MARA). Esta aproximação ao modelo americano revela uma tentativa de Ventura de
se distinguir dos seus pares europeus, procurando um novo patamar de
protagonismo político centrado na agressividade e no nacionalismo económico.
Com o desgaste das suas
abordagens tradicionais, Ventura percebeu que para manter as suas expectativas
eleitorais não bastava mais o discurso da zaragata ou a retórica de
confrontação, às quais regressou passado pouco tempo e regressou às acusações
recorrentes e procurar alternativas que lhe permitissem continuar a mobilizar
apoiantes.
Ao refletir sobre as eleições, sejam
legislativas, autárquicas ou, como é o caso presente, presidenciais, é
inevitável constatar que votar no partido Chega ou em André Ventura representa,
na verdade, tomar a mesma decisão. O motivo é simples: André Ventura não só
fundou o Chega, como é o rosto e a essência do partido, tornando-se impossível
separar a identidade de um da do outro. Esta simbiose é tão profunda que, para
muitos eleitores, a existência do Chega sem Ventura parece inconcebível ou,
caso aconteça, será apenas por um breve período, o partido poderá esgotar-se.
Para o próprio Ventura, a
situação nunca foi ambígua. Pelo contrário, a associação entre o seu nome e o
partido é, para ele, motivo de orgulho e motivo de constante reafirmação. O
termo “Claro”, que integra o seu nome, serve como metáfora da clareza com que
Ventura encara a sua liderança e a sua ligação ao Chega, tornando a relação
entre ambos inequívoca aos olhos do eleitorado.
A tentação de votar em André
Ventura para Presidente da República surge principalmente entre eleitores que,
desiludidos com os partidos tradicionais ou descrentes na eficácia das
instituições democráticas, procuram respostas rápidas e soluções aparentemente
simples para problemas complexos. Estes eleitores veem em Ventura uma
alternativa ao sistema político vigente, acreditando que a sua postura direta e
os seus slogans incisivos representam uma rutura necessária para regenerar a
vida pública e combater males como a corrupção, a ineficácia dos serviços
públicos e a insegurança social.
Para muitos destes eleitores, as
promessas de Ventura, por mais irrealistas ou delirantes que sejam, soam como
verdades óbvias e desejáveis. A ideia de “pôr na cadeia todos os corruptos” ou
de garantir “mais saúde” e “menos impostos” responde ao desejo coletivo de
justiça e melhoria de vida, mesmo que careça de explicação sobre a sua
concretização. A sua retórica, marcada por uma linguagem acessível e emocional,
capta sobretudo quem se sente excluído ou pouco representado pelo discurso
político tradicional.
O apoio a Ventura reforça-se
junto daqueles que, por desconhecimento ou desinformação sobre o funcionamento
das instituições democráticas, acreditam que o Presidente tem poderes quase
ilimitados para resolver todos os problemas nacionais. Esta perceção alimenta a
crença de que basta “querer, poder e mandar” para transformar a realidade,
ignorando os processos, limitações e equilíbrios próprios de um regime
democrático.
Finalmente, muitos eleitores veem
o voto em Ventura como um voto de protesto, uma forma de expressar
descontentamento e rejeição do sistema e dos partidos instalados. Ainda que
reconheçam as contradições e o carácter eleitoralista e ficcional das
promessas, preferem arriscar numa figura que se apresenta como um “outsider” e
desafiante, independentemente da sua real capacidade de concretizar as mudanças
propostas.
No dia 24 de janeiro, António
Barreto publicou no jornal Público um artigo de opinião que reflete
precisamente aquilo que tenho ponderado há já algum tempo, mas que não pus por
escrito: trata-se do conteúdo que Ventura proclama nas entrevistas e debates, que
acabam por se tornar repetições cansativas das mesmas ideias e frases feitas.
Apesar desta monotonia Ventura revela uma notável capacidade de mobilizar um
número significativo de pessoas que o continuam a escutar atentamente e a
absorver os seus slogans, muitas vezes semelhantes aos que se escutam em
conversas informais de café ou em discussões apressadas de rua, desprovidas de
uma reflexão mais profunda.
Permito-me descrever por próprias palavras alguns exemplos
que Barreto inclui no seu artigo do Público sobre as narrativas de André
Ventura é
construído para captar a atenção de quem desconhece os meandros do
funcionamento das instituições democráticas.
Ventura apresenta propostas que parecem prometer
soluções fáceis e imediatas para os problemas do país, sugerindo que o simples
ato de assumir um cargo político permite resolver todas as dificuldades pelo
poder do “querer, posso e mando”. Essa visão simplista pode convencer os menos
informados, levando-os a acreditar que bastaria a vontade de um líder para
transformar radicalmente Portugal.
A ilusão de que é possível atingir resultados
milagrosos apenas pela força da autoridade ignora por completo os limites e
equilíbrios necessários num regime democrático. A crença num “milagre de São
André Ventura” reflete uma compreensão superficial do papel das instituições e
do processo político, onde a separação de poderes e o respeito pelas regras são
fundamentais.
É essencial, especialmente para os mais jovens,
recordar como o desconhecimento da importância das instituições e o fascínio
por líderes carismáticos podem conduzir a perigos históricos. O exemplo do
partido Nazi na Alemanha serve como um alerta para não se repetir erros do
passado, mostrando que a ascensão ao poder baseada em discursos sedutores e
promessas irrealistas pode ter consequências graves para a democracia.
Vejamos então algumas dúvidas que se levantam sobre o que André Ventura matraqueia a toda a hora numa nuvem espessa de palavra, conceitos, ideias, propostas e promessas quase sem fim.
Comecemos com as promessas delirantes, e mais do que
muitas, de Ventura, mas que muitos portugueses quais esponjas ainda acolhem.
Comecemos com algumas das promessas mais evidentes que
é a de “mais saúde” e, também a de “menos impostos”. Todos nós desejamos o que Ventura promete,
mas apenas gostaríamos de saber como vai conseguir essas promessas. Precisamos que
nos diga como o fará como Presidente das República e, já agora também se algum
dia for primeiro-ministro.
André Ventura diz que vai “pôr na cadeia todos os
corruptos”. Quem não gosta de ouvir isto? Mas diga-nos como o vai fazer. Manda
nos juízes, se demite os atuais e nomeia novos, vai passar a comandar as
polícias ou então cria milícias que batem as ruas prendem a prende e a matar de
seguida.
Diz Ventura que vai “acabar com a corrupção e a
roubalheira”. Como o vai fazer e com que meios, como e com quem. Para ele quem
são os ladrões. Nem o que lhes faz: prende-os, desemprega-os, expulsa-os,
deporta-os ou mata-os?
Nesta sequência Ventura fala na sua reforma da
justiça, “Sócrates vai ser preso”, assim como “todos os que são iguais aos
Isaltinos”. E como o fará para os prender, dar ordem aos juízes com ou sem
condenação ou demite-os?
Quanto à Saúde Ventura diz que vai dizer ao Governo
“que não pode haver urgências de saúde, designadamente maternidades,
encerradas”. Concordamos, mas não nos diz como o vai fazer. Reclamar em
público, demitir o Governo, denunciar nos jornais, telefonar aos diretores de
hospitais, mandar deputados fazer discursos ou quando vai a despacho com o Governo?
E o que fará mais Ventura como Presidente da
República? No artigo que referi anteriormente o autor reflete, e bem, que “Ventura
promete obrigar o Governo a cumprir o seu programa, concretizar as suas medidas
e fazer as reformas que ele pretende. Mas não diz com que meios, como faz isso,
como obriga os governos. Como elabora e corrige os programas de governo. Como
escolhe os ministros que farão o que ele prometeu. Como inscreve as suas
políticas nos programas dos governos.”
Se falarmos em “rever a Constituição”, que ele apregoa
e promete só que não diz como. Como arranjará uma maioria de dois terços para a
revisão e dispensando a maioria de dois terços e como irá convencer os
deputados a levar a cabo a sua revisão? Que tipo de reformas pretende fazer da Constituição
sobre poderes e eleição do Presidente, direitos dos cidadãos, limites à
imigração, nacionalização de empresas, acabar com a independência dos tribunais,
retirar o direito à greve, limitar a liberdade de expressão, etc..?
Mais hilariante ainda é Ventura dizer que, se for
eleito, “dirá aos governos para onde devem ir e o que devem fazer”. Não nos informa como o vai fazer: se por despacho,
se em périplos pelas ruas e pelos mercados, se em mensagens ao Parlamento ou em
discursos públicos? Não diz o que vai dizer, nem sobre quê. Saúde, imigração,
educação, horários dos transportes públicos, segurança social, desordem nas
ruas, criminalidade, ilegalidade…
Há mais, muito mais que Ventura não nos diz e os
portugueses precisam de saber!!
